O legado irreparável de Ernesto Araújo para o Brasil

Chanceler trabalhou durante 26 meses para achincalhar a dimensão do país no exterior. Ernesto Araújo, em foto de março de 2021 Adriano Machado/Reuters/Arquivo Nada mais vergonhoso para a imagem de um país seu ministro das Relações Exteriores tomar um pito em público, como aconteceu no início do mês, quando Ernesto Araújo se preparava para dar uma entrevista em Israel, sem máscara, ao lado do homólogo Gabi Ashkenazi. O constrangimento desta cena ilustrava a atuação de Araújo – o chanceler brasileiro que trabalhou duro, durante 26 meses, para achincalhar a dimensão do Brasil no exterior. Além de enriquecer sua coleção de episódios embaraçosos, ele contribuiu para esvaziar o papel histórico do Itamaraty, de ator independente e pragmático, alijando o país de negociações e de fóruns internacionais. Nunca o Brasil esteve tão isolado e tão desprezado no cenário mundial. Imprensa internacional noticia demissão de Ernesto Araújo Ernesto Araújo pede demissão do Ministério das Relações Exteriores Ser o interlocutor de um país agora considerado pária por seus tradicionais aliados não incomodou o chanceler. Ao contrário, o isolamento era motivo de orgulho, conforme ele expressou em outubro passado, na formatura de novos diplomatas: “Esse pária aqui, esse Brasil, essa política do povo brasileiro, tem conseguido resultados. Talvez seja melhor ser esse pária deixado ao relento, deixado de fora, do que ser um conviva no banquete no cinismo interesseiro dos globalistas, dos corruptos e semicorruptos.” Essa linha torpe de pensamento, calcada na ideologia radical de direita e propagada em teorias conspiratórias, alienou o Brasil de obter vacinas contra a Covid-19: o chanceler teria articulado para barrar a adesão do país ao consórcio Covax, criado em 2020 para facilitar mundialmente a distribuição de imunizantes, apenas com o intuito de enfraquecer a Organização Mundial de Saúde (OMS). Ernesto Araújo nunca comandou uma embaixada, mas como ministro das Relações Exteriores será lembrado por ideologizar o Itamaraty e tentar apagar a história brasileira. E também por: dizer que nazismo e fascismo eram de esquerda; prejudicar o país com uma política ambiental desastrosa; aliar-se incondicionalmente aos EUA de Donald Trump; mostrar-se ambíguo em relação à invasão do Capitólio por extremistas incentivados pelo ex-presidente americano; indispor-se com China e Índia, dois parceiros brasileiros nos Brics; paparicar líderes de regimes autoritários como Hungria e Polônia; deixar o Brasil de fora de uma declaração conjunta, com 60 países, em favor dos direitos das mulheres; e ser o principal alvo de um manifesto de 300 diplomatas brasileiros. O chanceler deixa um legado irreparável para o Brasil; seus sucessores atuarão, por um longo período, sobre terra arrasada. VÍDEOS: os mais assistidos do G1 nos últimos 7 dias

O legado irreparável de Ernesto Araújo para o Brasil

Chanceler trabalhou durante 26 meses para achincalhar a dimensão do país no exterior. Ernesto Araújo, em foto de março de 2021 Adriano Machado/Reuters/Arquivo Nada mais vergonhoso para a imagem de um país seu ministro das Relações Exteriores tomar um pito em público, como aconteceu no início do mês, quando Ernesto Araújo se preparava para dar uma entrevista em Israel, sem máscara, ao lado do homólogo Gabi Ashkenazi. O constrangimento desta cena ilustrava a atuação de Araújo – o chanceler brasileiro que trabalhou duro, durante 26 meses, para achincalhar a dimensão do Brasil no exterior. Além de enriquecer sua coleção de episódios embaraçosos, ele contribuiu para esvaziar o papel histórico do Itamaraty, de ator independente e pragmático, alijando o país de negociações e de fóruns internacionais. Nunca o Brasil esteve tão isolado e tão desprezado no cenário mundial. Imprensa internacional noticia demissão de Ernesto Araújo Ernesto Araújo pede demissão do Ministério das Relações Exteriores Ser o interlocutor de um país agora considerado pária por seus tradicionais aliados não incomodou o chanceler. Ao contrário, o isolamento era motivo de orgulho, conforme ele expressou em outubro passado, na formatura de novos diplomatas: “Esse pária aqui, esse Brasil, essa política do povo brasileiro, tem conseguido resultados. Talvez seja melhor ser esse pária deixado ao relento, deixado de fora, do que ser um conviva no banquete no cinismo interesseiro dos globalistas, dos corruptos e semicorruptos.” Essa linha torpe de pensamento, calcada na ideologia radical de direita e propagada em teorias conspiratórias, alienou o Brasil de obter vacinas contra a Covid-19: o chanceler teria articulado para barrar a adesão do país ao consórcio Covax, criado em 2020 para facilitar mundialmente a distribuição de imunizantes, apenas com o intuito de enfraquecer a Organização Mundial de Saúde (OMS). Ernesto Araújo nunca comandou uma embaixada, mas como ministro das Relações Exteriores será lembrado por ideologizar o Itamaraty e tentar apagar a história brasileira. E também por: dizer que nazismo e fascismo eram de esquerda; prejudicar o país com uma política ambiental desastrosa; aliar-se incondicionalmente aos EUA de Donald Trump; mostrar-se ambíguo em relação à invasão do Capitólio por extremistas incentivados pelo ex-presidente americano; indispor-se com China e Índia, dois parceiros brasileiros nos Brics; paparicar líderes de regimes autoritários como Hungria e Polônia; deixar o Brasil de fora de uma declaração conjunta, com 60 países, em favor dos direitos das mulheres; e ser o principal alvo de um manifesto de 300 diplomatas brasileiros. O chanceler deixa um legado irreparável para o Brasil; seus sucessores atuarão, por um longo período, sobre terra arrasada. VÍDEOS: os mais assistidos do G1 nos últimos 7 dias